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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Um pouco de Drummond....


Fácil e Difícil
 
Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião...
Difícil é expressar por gestos e atitudes, o que realmente queremos dizer.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias...
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus próprios erros.

Fácil é fazer companhia a alguém, dizer o que ela deseja ouvir...
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer a verdade quando for preciso.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre a mesma...
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado...
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece.

Fácil é viver sem ter que se preocupar com o amanhã...
Difícil é questionar e tentar melhorar suas atitudes impulsivas e às vezes impetuosas, a cada dia que passa.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar...
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar...
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.

Fácil é ditar regras e,Difícil é segui-las...
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefónica.Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.


By: Carlos Drummond de Andrade


terça-feira, 5 de agosto de 2008

"Morrer deve ser uma grande aventura"

"Perdemos muitas coisas ao longo da vida: amigos, dinheiro, amados e bugigangas. O tempo passa e percebemos que a dinâmica implacável das derrotas aumenta em ritmo e intensidade. Perdem-se os dentes, a memória, o ânimo e alguns sonhos. Perdem-se amores para sempre. Alguns se vão por esclerose. Outros seguem seus caminhos por conta dos erros de cálculo.

Vão-se os amigos, as amadas e as amarras. E nem o vento volta para nos empurrar mar adentro. Partem os vizinhos, os colegas de trabalho e os próprios empregos. Morre muita gente pelo caminho. Uns morrem de burrice. Outros morrem de velhice. Vários cederam às tentações e decepcionaram. Morreram também.

O sítio morre para garantir a poupança. A casa cede ao apartamento pelo desperdício de espaço. O carro falha, o sapato fura e o pijama fica. Pára o relógio mais querido, some o brinquedo que seria para sempre, fica para trás alguma coisa importante da qual agora eu já nem lembro.

O destino é infiel e decidido. Mesmo que eu acredite que nada está decidido. Fui criado para lutar e fazer o futuro que pudesse conquistar. Apesar disso, assisto espantado aos lances definitivos do acaso.

E nesse mundo de perdas, a pior de todas é a da sensação de invulnerabilidade. Depois de certa idade, morrem os pais, os tios, os padrinhos. Parece que combinam. Chega um momento e morrem todos aqueles que nos deram tudo o que somos (ou boa parte das perdas e dos ganhos).

Aos poucos percebemos que até os nossos heróis acabam sendo abatidos. E é difícil aceitar que não há mais quem nos proteja da vida. É quando, mesmo já adultos, marmanjos, perdemos de vez o que podia sobreviver da meninice protegida. Ou viramos nós mesmos os heróis de nossos filhos, sobrinhos e afilhados, ou perdemos todos e tudo, a começar pela esperança.

É triste perceber que nascemos dessas perdas. Renascemos, na verdade. Recomeçamos de onde estávamos para seguir além do possível. Até que o tempo, a burrice ou as decepções nos matem. E ganhemos o status de buracos nas vidas daqueles que nos amam (ou nos amaram).

Nos últimos tempos tenho perdido muita gente querida. E não gosto de acreditar no inevitável. Queria muito poder voltar a ser o cowboy de mentirinha que montava no cavalo-goiabeira do jardim. Arremessar mangas na cachoeira como se fossem granadas de uma guerra imaginária (e eu sempre vencia). E exercitar meus super poderes de brincadeira enquanto meus velhos heróis batalhavam de verdade para que eu pudesse brincar.

Mas até os meus heróis acabaram perdendo. E como se não soubesse que isso fosse acontecer, fico muito triste. Talvez não quisesse acreditar. Pois os próximos a perder serão meus filhos, sobrinhos e afilhados, que escolheram a mim, pobrezinhos, para ser o super herói que vai morrer um dia. E eu não quero que eles cresçam, porque vão perder o que venho perdendo nestes últimos tempos.

Mas nós, humanos, somos feitos daquilo que perdemos. E nada mais podemos fazer que não reconstruir em nós mesmos aqueles que nos fizeram vencer. Até para sabermos perdê-los. Até para saber que um dia também seremos perdidos."

sábado, 19 de julho de 2008

Poesiaaa =D

Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.


Vinicius de Moraes

terça-feira, 15 de julho de 2008

Um pouco de Poesiaaa!

Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.